sábado, 17 de setembro de 2016

Cara de Paisagem

Lembra-te, ó Homem, de que ninguém gosta de um rosto enfarado, imutável e distante como uma paisagem, ninguém aprecia uma pessoa inacessível, solene e engomada o tempo todo. Afinal, existimos para viver e conviver com sangue e paixão e não para sermos peças empalhadas de algum estranho museu. Mas tem gente que se esforça em ostentar uma enluvada pureza, uma alienada neutralidade, uma distância de paisagem.
Conhecemos todos pessoas assim, que se portam com uma calculada sobranceirice, como se o que é próprio ao comum dos mortais não lhes dissesse respeito. Não vibram, não se emocionam, não mostram preferências, resguardam ciosamente seus sentimentos, bloqueiam em si e esfriam nos outros qualquer tipo de reação e mantém, rigidamente sob controle, seus mais legítimos impulsos e afetos.

Causam pena. Olhando para elas, até desejaríamos abordá-las, mas nos perguntamos como e se deveríamos? Como chegar ao seu íntimo, como romper as máscaras rugosas de suas bem estudadas proteções? Parecem feitas de vidro, brilhante, mas escorregadio, não riem, não choram, não abraçam. Mostram-se até educadas, sem se permitirem, no entanto, ser amigas ou cúmplices de ninguém e de nada.

Costuma-se dizer que tais pessoas têm cara de paisagem, impassível e sempre igual, armada e diplomática, intocável e desencantada. Não vai nisto nenhuma zangada condenação, mas apenas uma lamentável constatação. Quando jovens, elas não se concederam ou não lhes foi concedida a chance de extravasamentos afetivos, de amizades concretas e arriscadas, de um namoro sério e pra valer; já agora, quando velhas, vivem blindadas por uma superioridade olímpica, inatingível, maravilhosa, quem sabe?, mas pouco graciosa.

Já te perguntaste sobre o que há por detrás destas caras de paisagem? Elas tiveram, possivelmente, uma educação esmerada, mas asséptica, que não lhes possibilitou a personalização de desejadas escolhas, mesmo inocentes, nas quais pudessem correr os riscos normais de viver. Foram educadas para um padrão de vida em que o comportamento de classe era mais importante do que a liberdade pessoal de acertar ou errar.

Nunca experimentaram, por isso, a alegria de gritar, de discordar, de optar e de se afirmar dizendo não, de rir com vontade ou de sujar a roupa e de pregar uma inocente peça aos coleguinhas de escola ou de rua. Foi-lhes impedida a normalidade dos contatos e ensinaram-lhes a se preservarem de sentimentos pouco nobres, decididamente plebeus. Em sua olímpica formação, foram instadas a olhar o mundo com uma soberana comiseração, um disfarçado desdém e uma fingida segurança.

Na convivência social, fingem uma segurança que estão longe de possuir. Tudo nelas é encenação, é aparência, é malabarismo. Fingem ser o que não são, são atores de um teatro sem final feliz. Olham-se no espelho sem sentir alegria, vivem sem curtir a graça de viver.

Em suas vidas, tudo é, infelizmente, tão certo que não são capazes de algo errado, de um pecado, por exemplo, bem feito, isto é, personalizado, próprio, só delas, livre. Uma fingida segurança as faz admiráveis e distantes, muito para serem consideradas e pouco para serem queridas. Por fora são certinhas, perfeitas, irretocáveis. No fundo, escondem um animal acorrentado, amedrontado, infeliz.

Não é preciso dizer que tais pessoas são uma tragédia. Para si e para os outros. Talvez sejam convivas ideais e brilhantes em salões nobres de festa, mas não para a convivência diária, para um casamento, para relações mais exigentes, onde errar e acertar são ocorrências quotidianas, penosas e/ou desejáveis. Teriam que mudar. Uma revolução precisaria acontecer em suas vidas.

Porque, nas relações com os outros, não basta ser apenas sério, é preciso também sentir-se e aceitar-se frágil, dependente e mendigo, deixando-se invadir, ajudar, questionar, rasgar-se por dentro e por fora. Ser, em outras palavras, humano, muito humano, gente dos pés à cabeça. O Olimpo, enfim, é para os deuses. Para nós, gente, nosso céu e nosso inferno são os outros.

A aventura de viver é o nosso maior risco. Mas é também nossa possível glória. Educar-se para bem viver é o nosso maior desafio. Nisto, podemos acertar ou errar. Só não podemos nos eximir, por medo ou arrogância, por excessiva auto-proteção ou irresponsável despudor, de enfrentar o ideal de ser gente e de ser gente em plenitude.

Aliás, Deus não nos cobrará êxitos ou vitórias, mas esforços e caráter. Como Jesus, podemos, num aparente fracasso, terminar crucificados, mas afirmando, num ato de fé, que tudo está bem, que, em nossa vida, tudo está consumado, porque ela repousa nas mãos de Deus.

Pertencemos, dependemos e somos uns dos outros. Nossa grande graça tem um nome e um endereço: o próximo. Com ele, construímos o céu e o inferno. Longe deles, nossa paisagem não tem a menor graça. Sem eles, a vida não será um luxo, mas apenas uma empobrecida e lamentável tragédia.

Lembra-te, ó Homem, de que a coisa mais bonita que cada um tem é a paisagem de sua vida. Deixar que os outros a admirem e dela se encantem é uma aventura perigosa, mas com reais possibilidades de felicidade. Vale a pena tentar e vale a pena correr este risco. O que não se pode é ter, apenas, uma cara de paisagem.

Frei Neylor J. Tonin
Irmão menor e pecador                        
Neylor J. Tonin é frade franciscano e descendente de italianos. Mestre em Espiritualidade, é formado em Psicologia, Sociologia e Jornalismo. Escritor e conferencista, professor de Oratória Sacra (Homilética), quer ser da vida "um bom pastor, um ardente profeta, um encantado poeta

Texto indicado pela minha amiga Maristela Lanna

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Sofrimento e não Sofrimento - Texto de Eckhart Tolle - Narração Alice G...



"Faça,se em mim segundo a sua vontade!"

A máquina do mundo

Carlos Drummond de Andrade



E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas.

Aceita o universo

Alberto Caieiro



Aceita o universo 
Como te deram os deuses. 
Se os deuses te quisessem dar outro 
Ter-to-iam dado. 

Se há outras matérias e outros mundos 
Haja.

Querem uma luz melhor que a do sol!




Alberto Caeiro




Ah! Querem uma luz melhor que
a do Sol!
Querem prados mais verdes do que estes!
Querem flores mais belas do que estas
que vejo!
A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me.
Mas, se acaso me descontentam,
O que quero é um sol mais sol
que o Sol,
O que quero é prados mais prados
que estes prados,
O que quero é flores mais estas flores
que estas flores -
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!



segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Mondrian



Foi muito visitar esta exposição.
Vale a pena conferir


Para muitas pessoas, o nome Mondrian remete a uma associação mais ou menos imediata com retângulos de cores primárias delimitados por grossas linhas pretas. Mas ele, como tantos outros mestres das artes, não se manteve a vida inteira no âmbito dos seus trabalhos mais conhecidos. Piet Mondrian (1872-1944) chegou a sua obra mais famosa – Composição com grande plano vermelho, amarelo, preto, cinza e azul – em 1921, depois de uma trajetória que iniciou em 1892, ao ingressar na Academia Real de Artes Visuais de Amsterdã.

Nos quase 30 anos que antecederam a esse despojamento, Mondrian produziu paisagens carregadas de cores escuras, e as vezes sombrias, que caracterizavam a pintura holandesa do século XIX. Aos poucos, ele foi se aproximando dos movimentos artísticos que aconteciam na Europa. Seus tons foram clareando e suas composições ficando mais ousadas à medida em que se aproximava dos pós-impressionistas franceses, enchendo-se das cores e pinceladas vigorosas de Van Gogh, ou experimentando o pontilhismo de Seurat. Num processo contínuo, após uma influência temporária do cubismo, procurou formas de abstrair a realidade e buscar a essência da imagem.

Mondrian e o movimento De Stijl, nome da exposição que o CCBB em parceria com Art Unlimited preparou para os brasilienses, é uma oportunidade imperdível. “Organizamos tudo para que o visitante possa acompanhar esse percurso e entender que aqueles retângulos coloridos que povoam até hoje o imaginário do moderno, e são tão facilmente reconhecíveis, não nasceram de uma hora para outra, nem por acaso”, explica o curador da exposição, Pieter Tjabbes.

A exposição, contudo, não se esgota com a história artística de Mondrian. Há uma segunda etapa, igualmente relevante para compreender o que aconteceu naquele período (1917-1928), que mostra a agitação provocada pela revista De Stijl (O Estilo), o meio escolhido para que um grupo de artistas, designers e arquitetos, incluindo Mondrian, defendesse o neoplasticismo e a utopia da harmonia universal de todas as artes.

Mondrian acreditava que sua visão da arte moderna transcendia as divisões culturais e poderia se transformar numa linguagem universal, baseada na pureza das cores primárias, na superfície plana das formas e na tensão dinâmica em suas telas. E seus companheiros da De Stijl não só tinham visão semelhante, como aplicaram esses conceitos a todo tipo de arte.

No design, por exemplo, é representativa desse movimento a cadeira Vermelha Azul, que Gerrit Rietveld criou entre 1917 e 1923. O mesmo Rietveld levou o De Stijl para a arquitetura, ao desenhar e construir em 1924 uma casa para Truus Schroder-Schrader em que aplicou a paleta de cores primárias privilegiando espaços abertos, luminosidade, ventilação e funcionalidade, rompendo com convenções arquitetônicas da época.

Os princípios expostos nos 12 anos em que a revista De Stijl circulou foram utilizados nas artes plásticas, na arquitetura, na fotografia, no design, na literatura, na tipografia e até mesmo na moda. Em Mondrian e o movimento De Stijl será possível acompanhar, por intermédio de obras originais, maquetes, mobiliários, fotografia, documentários, fac-símiles e publicações de época, essa forma de ver o mundo e as artes que era revolucionária em 1917 e continua moderna até hoje.

Mondrian continuou experimentando até Victory Boogie Woogie, sua última obra, de 1944, pintada quando já morava nos Estados Unidos. Ele morreu de pneumonia, em 1944, aos 71 anos.

A exposição Mondrian e o movimento De Stijl, organizada pela Art Unlimited e patrocinada pelo Banco do Brasil, com apoio do Banco Votorantim, será aberta ao público de Brasília no aniversário da cidade, 21 de abril. São cerca de 100 obras — 30 das quais de Mondrian — e uma seleção de múltiplas manifestações do movimento De Stijl compondo o mais completo conjunto desse período já exibido no Brasil.

A maior parte do acervo é procedente do Museu Municipal de Haia (Gemeentemuseum, Den Haag), da Holanda, que reúne a maior coleção do mundo de obras de Mondrian.

In: http://culturabancodobrasil.com.br/portal/mondrian-e-o-movimento-de-stijl-2/


sexta-feira, 5 de agosto de 2016

O seu caminho está sempre aberto







Ele nos olha de jeito diferente
Entra nos mais íntimo,
capaz de revelar ainda o que nem sabemos
precisamos seguí-lo,
sentí-lo...
tão vivo em nós
presença em nossa vida, mesmo que distantes às vezes estamos!
Queremos e somos discípulas de Jesus!
O seu caminho está sempre aberto
"(...) Não ardia o nosso coração enquanto Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras" (Lc 24, 13-35)