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Precauções inúteis

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Quem tapa minha boca não perde por esperar o silêncio de agora amanhã é voz rouca de tanto gritar. Quem tapa meus olhos nada esconde de mim Sei seu nome e o seu rosto, o lugar que estou sua noite sem fim. quem tapa meus ouvidos me faz escutar mais Igualei-me às muralhas e o silêncio mais fundo guarda o rumor do mundo. Quem me quer sem memória erra redondamente. Lembro-me de tudo e, cego, surdo e mudo até do esquecimento. E quem me quer defunto confunde verão com inverno. Morto, sou insepulto. Homem, sou sempre vivo. Povo, sou eterno   Lê do Ivo ( Maceió , 18 de fevereiro de 1924 ) é um jornalista , poeta , romancista, contista, cronista e ensaísta brasileiro . Publicou o seu primeiro livro, As Imaginações. Fez jornalismo e tradução . Da sua vasta obra, destacam-se títulos como Ninho de Cobras, A Noite Misteriosa, As Alianças, Ode ao Crepúsculo, A Ética da Aventura ou Confissões de um Poeta.

Colóquio das estátuas

Assim confabulam, os profetas, numa reunião fantástica, batida pelos ares de Minas. Onde mais poderíamos conceber reunião igual, senão em terra mineira, que é o paradoxo mesmo, tão mística que transforma em alfaias e púlpitos e genuflexórios a febre grosseira do diamante, do ouro e das pedras de cor? No seio de uma gente que está ilhada entre cones de hematita, e contudo mantém com o Universo uma larga e filosófica intercomunicação, preocupando-se, como nenhuma outra, com as dores do mundo, no desejo de interpretá-las e leni-las? Um povo que é pastoril e sábio, amante das virtudes simples, da misericórdia, da liberdade – um povo sempre contra os tiranos, e levando o sentimento do bom e do justo a uma espécia de loucura organizada, explosiva e contagiosa, como o revelam suas revoluções liberais? São mineiros esse profetas. Mineiros na patética e concentrada postura em que os armou o mineiro Aleijadinho; mineiro na visão ampla da terra, seus males, guerras, crimes, tristezas e anelos; m...

Os profetas de Aleijadinho

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  Contemplemos os profetas de Congonhas, no seu fulgarante "ballet", para usar a expressão de Germain Bazin. Não existe no mundo inteiro maior conjunto artístico do que aquele. Cada Profeta traz na respectiva cartela imprecações e invectivas contra os poderosos e os tiranos. Está na boca de Isaías - "encostaram uma brasa aos meus lábios."   Joel diz solene: "Forjai espadas das relhas de vossos arados." Amós protesta: "Machucam sobre o pó da terra as cabeças dos pobres." Eis como Gilberto Freyre analisa a obra de Antônio Francisco Lisboa, tomando-a como "expressão da rebeldia social e do desejo brasileiro, indígena e mestiço, de independência face aos homens brancos ou europeus exploradoradores da mão-de-obra escrava". E mais: "Nesse mulato doente - distanciado socialmente dos dominadores brancos não só pela cor e pela origem como pela doença que lhe foi comendo o corpo e secando os dedos até só deixar vivo um resto ou retalho de...

As armadilhas da pobreza

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Bernardo Kliksberg, assessor do Pnud, fala dos efeitos perversos da desigualdade Por Denise Ribeiro Todos os anos, 18 milhões de seres humanos morrem por causas relacionadas à pobreza. Desse total, 10 milhões são crianças. Em 2008, o mundo comemorou sua segunda maior safra agrícola da história. Mesmo assim, 5 milhões de crianças morreram de fome por falta de acesso à comida. Esses tipos de dados balizam os estudos do economista argentino Bernardo Kliksberg, que assessora o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e outros tantos organismos multilaterais, como o Unicef e a Unesco. Criador de uma nova disciplina, a gerência social, o argentino é um dos pioneiros na disseminação do conceito de ética para o desenvolvimento, o capital social e a responsabilidade social empresarial. Autor de 47 obras, seu livro mais recente, As Pessoas em Primeiro Lugar, foi escrito em parceria com Amartya Sen, prêmio Nobel de Economia em 1998. Um dos palestrantes da conferência inte...

O Chile sombrio de El Rey

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Militante do partido que elegeu Salvador Allende narra três décadas de história do país a partir do golpe de 1973. Salvador Allende Rememorar acontecimentos dolorosos, sobretudo aqueles com os quais tivemos maior envolvimento, é tarefa difícil. Exige um esforço de distanciamento construir um texto em que todos se reconheçam nas sombras do passado. Esta qualidade se destaca na narrativa de Heraldo Muñoz em A Sombra do Ditador – Memórias Políticas do Chile sob Pinochet (Jorge Zahar, 396 págs., R$ 59), uma reconstrução equilibrada da dramática história chilena, abrangendo o período que vai do golpe militar responsável por derrubar Salvador Allende, em 1973, até a eleição de Michelle Bachelet à Presidência, em 2006. Augusto Pinochet Militante do Partido Socialista, que elegeu Allende, Muñoz foi personagem engajado nessa conjuntura traumática. Escapou de ser preso e torturado porque o oficial em seu encalço errou de endereço e a corajosa vizinha, mesmo pressionada pela ...

Primavera

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A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega. (...) Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor. Tudo i...

O legado de Lévi-Strauss

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 Os estudos do pensador do século XX foram fundadmentais para entender que a civilização ocidental não é privilegiada e unica. Lévi-Strauss dedicou mais de duas décadas à analise estrutural dos mitos das populações indígenas. Matéria 1: Claude Lévi-Strauss morre aos 100 anos e deixa um grande legado para a antropologia com a criação do estruturalismo e o fim do pensamento da superioridade da civilização ocidental. Ouça na íntegra a reportagem de Pedro Castro  http://www.ufmg.br/online/radio/arquivos/014235.shtml Matéria 2: Mais do que um antropólogo, Lévi-Strauss era um grande contador de histórias. Ouça na íntegra a reportagem de Bernardo Miranda e Larissa Arantes.  Matéria 3: Obra do antropólogo Claude Lévi-Strauss é essencial para a compreensão dos conflitos indígenas atuais no Brasil. Ouça na íntegra a reportagem de Pedro Castro.